
Por Camila Lagares
"A moda não é uma arte, é um negócio".
Coco Chanel
Contrariando todos os padrões da época, Gabrielle Chanel era literalmente uma mulher além do seu tempo, e com pensamentos contrários a todos os padrões.
Nascida em uma família de cinco irmãos, Gabrielle e suas duas irmãs foram deixadas pelo pai aos12 anos em um orfanato. Criada em um regime duro, ela dizia que foi isso que lhe fez ser forte e diferente.
A rígida disciplina povoou a mente de Gabrielle de más recordações. Mas ainda assim ela falava que devido às essas regras o resultado tenha sido em seu caso, um complexo de superioridade indomável.
Aos 20 anos trabalhando em um armarinho ela descobriu o gosto pela arte e tentou ser cantora na cidade de Moulins, centro da França onde se apresentava com apenas duas músicas que sabia: Ko-ko-ki-ko e Qui quersquo a vu CoCo. E por causa dessas, nunca mais foi chamada de Gabrielle. Assíduos freqüentadores desses concertos a apelidaram de Coco, e assim ficou.
E foi também nesses concertos que Coco conheceu seu grande amor, Etienne Balsan, um grande herdeiro do setor têxtil.
Assim, aos 23 anos, Coco seguindo seu coração foi morar com seu amado, o que na época era um escândalo. As regras eram se casar e constituir família. Mas essas eram apenas as regras da sociedade o que não significava muito para ela.
“Ninguém pode viver com horizontes tão estreitos”
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Mas Coco era diferente, desde seu comportamento, suas idéias e principalmente seu jeito de se vestir. Ela acompanhava seu amante ao hipódromo usando chapéus de palha, gravatas e paletós que tirava do armário de seu companheiro. Enquanto as mulheres da época usavam espartilhos, rendas, pompas e jóias.
Coco tinha horror aos babados, plumas e rendas. Preferia trajes masculinos e em pouco tempo, artistas, esportistas e escritoras (mal faladas pela sociedade da época) a procuraram pedindo dicas daquela moda tão peculiar.
Trabalhar na época significava necessidade quando se referia a mulheres; mas seu ímpeto era ser independente. Foi quando Arthur Capel entrou em sua vida. Diante de todas as barreiras encontradas por Coco, Arthur apoiou e ajudou. E os chapéus de palha começaram a ser procurados por toda Paris. E um desses acabou na capa da revista Les Modes.
Com a ajuda da atriz Gabrielle Dorziat que usava o tal chapéu em sua peça, mais a ajuda financeira de Arthur, em 1911 Coco abriu sua primeira loja no número 31 da Rue Cambon, em Paris ao lado da Alameda Faubourg Saint Honoré onde ficam as grandes marcas. (Ainda hoje o costureiro Karl Lagerfeld assina criações da marca Chanel no mesmo endereço.)

De modista à estilista
Uma modista, termo usado na época para designar criadores de chapéus e penteados, que em um belo dia decidiu não usar mais as malhas do namorado e sim improvisar um vestido no seu estilo. Reformou então, uma dessas roupas ao seu jeito e quando todos a perguntavam onde havia comprado, ela simplesmente respondia que poderia fazer um igual se a pessoa desejasse.
E de repente os espartilhos e vestidos que se arrastavam pelas ruas, moda inadequada segundo Coco, deu lugar às blusas de golas rulês e taillers de tecido tweed. Assim nascia um clássico da moda feminina.
Mas foi depois da Segunda Guerra Mundial que Chanel Modas estourou devido às necessidades da época. Uma sociedade que precisava de mais simplicidade e objetividade, coisa que os vestidos enormes, pesados já não atendiam. As damas obrigadas a deixar suas mansões e andar a pé, agora precisavam de praticidade.
E assim o império Chanel foi crescendo. Seus vestidos de jérsei eram encomendados às dezenas.
Inventando a moda e imprimindo uma personalidade no tempo
Mas o que levava Chanel não era apenas sua habilidade de negociação ou criações práticas e inéditas; e sim a personalidade de sua criadora, que não se cansava nunca de enfrentar barreiras e ser precursora de uma geração.
Cortou seus cabelos à altura dos ombros, diminuiu o comprimento das saias, mostrou o tornozelo, fez amizades com artistas como Pablo Picasso e Renoir; e ainda como se não bastasse, fez de uma perda, a do amor de sua vida, um marco: a criação do seu perfume Chanel N.5.
E não foi suficiente. Coco ainda imprimiu sua marca na eternidade com o pretinho básico, os colares de pérolas falsas e a bolsa com alça de correntes.
Como nada em sua vida era comum, Coco ainda foi acusada de colaborar com Hitler. E só aos 70 anos, depois de um longo tempo com as portas fechadas, ela reinaugurou seu ateliê onde trabalhou até dia 09 de janeiro de 1971.
Gabrielle morreu em um domingo, dia que ela dizia odiar.
E no dia 25 do mesmo mês, no mesmo ano as pessoas brigavam para ver a última coleção desenhada por Coco.
“Só aos domingos eu não invento nada" - Coco Chanel.
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P.s 1: A marca foi retomada em 1983 sob a “tesoura” de Karl Lagerfeld e permanece até hoje em sua direção.
P.s 2. Esse ano seremos presenteados com o Filme Coco avant Chanel com a atriz francesa Audrey Tautou.
Matéria Publicada na Revista Cult - Uberlândia - Junho/2009